As bizarrices paulistanas começaram a dar as caras quando eu abandonei o meu possante na garagem de casa e passei a me locomover de ônibus e metrô em São Paulo.
Não tenho problema algum com o transporte público. Inclusive, pasmem, eu prefiro assim. Tudo bem que os usuários poderiam ter um intensivão denominado
"Como se comportar no espaço público - Aula 1: Do ponto de ônibus à estação de metrô"
entretanto, eu me estresso por demais ao volante, logo, prefiro ser transferida de um local a outro enquanto leio, por exemplo.
Sendo assim, às dez e meia da noite, munida de mochila de rodinhas, bolsa no ombro e spray de pimenta estrategicamente acionado na mão direita (sim, sou dessas), eu me encontrava num dos ponto da Av. Pacaembu. No trajeto até o ponto eu pedia a qualquer entidade divina para que o local não fosse deserto. No entanto, como os meus atuais questionamentos comprovaram, entidade alguma me escutou e a rua estava mais deserta do que balada interiorana em feriado chuvoso. Minto, quisera eu que estivesse deserta assim.
Sentado exatamente no ponto em que eu teria que ficar, estava um... ahn... ser. Tipo esquisitíssimo e não pela sua aparência. Apesar das vestimentas simples, ele estava limpo, de cabelo cortado e a barba - cheia - feita. Conforme eu me aproximava, tentando, mentalmente, buscar por alguma outra saída que não fosse continuar andando e concretizar o inevitável encontro, o via olhando compulsivamente para trás, como se alguém o observasse. Seus olhos grandes e arredondados, pareciam temer um arqui-inimigo imaginário.
Quando me dei conta, já estava a dois passos dele e, para tentar esconder o meu medo de ser atacada, soltei um:
- E aí, firmeza?
"E aí, firmeza". "E AÍ, FIRMEZA"! "E AÍ, FIRMEZA"? Tipo, "oi, bem?". Se o cara cogitou a possibilidade de me matar/assaltar/estuprar, garanto, essa possibilidade morreu com o meu "E aí, firmeza". Definitivamente. Ele sequer me respondeu. Só me observou com seus olhões de quem havia cheirado uma carreira do Oiapoque ao Chuí. O cara estava ligadasso.
Sendo assim, como eu já o havia cumprimentado, resolvi ficar.
À princípio, me sentei. Mas, em questão de segundos, minha mente já havia analisado toda a redondeza e esquematizado um plano de fuga certeiro. Ficar sentada não estava dentre as etapas. Então, me pus em pé. Olhava de um lado ao outro, repetindo mentalmente o nome da linha em que eu deveria embarcar.
Quando eu achei que a situação não podia ficar mais medonha, nosso colega resolveu começar a falar. Sozinho. Provavelmente com a pessoa invisível que estava atrás dele no começo da minha aventura."Bom, pelo menos o volume de sua voz vai me ajudar a controlar a distância entre nós dois" - pensei, aliviada. Aliviada, até começar a entender o que ele dizia.
- Eu tô com raiva... Vô matá aquele filho da puta, sim! Já matei uma vez... Mato de novo!
Senti minhas pernas darem uma leve amolecida e minha expressão murchar. Naquele ponto eu passei a me conformar com a minha morte certeira. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come, então, entre o ruim e o pior, escolhi ficar. Já que eu ia morrer mesmo, pra que fadigar meus músculos?
E sua conversa continuava:
- O ser humano é um bicho sem sentimento. Mata sem dó. É... ninguém tem dó de ninguém, não!
E, por fim, chegaram dois rapazes que, tão assustados quanto eu, olhavam, vez ou outra, para o falador. Porém, meu sentimento de "fui salva!", durou menos do que dez minutos, que foi o tempo que demorou para eles entrarem num ônibus. E o homem seguia:
- Eu atirei na cara dele! Com uma 38. Atirei, joguei dentro do barraco dele e botei fogo no corpo. É... daí ficou aquele cheiro de carne queimada dentro do barraco. Quero ver neguinho entrando lá agora. Quero ver quem vai conseguir aguentar o cheiro! Ninguém vai mais morar lá, não!
E a conformidade retornou ao meu corpo. Eu tinha certeza de que era questão de segundos até ele me atacar. Principalmente porque ele começou a ficar puto com a própria conversa e aumentar o tom de voz. Quando ele gritava, eu olhava, pra ver se ele ainda estava sentado. Por sorte, ele sempre estava.
E, então, chegou a segunda remessa de pessoas. Dessa vez, resolvi me salvar.
- Moça, por favor, você sabe se o 175P-10 passa por aqui? Já faz mais de meia hora que eu estou esperando e nada!
Ela sorriu e ajudou. Perguntou-me aonde eu queria ir e falou que eu podia pegar outros tantos ônibus além daquele. Ao terminar de me explicar, seu ônibus chegou e ela disse:
- Olha! Aquele de trás vai pra onde você quer!
E não é que o ônibus PASSOU RETO? Saí correndo feito louca, gritando todo o meu medo pra que ele parasse; o motorista do outro ônibus deu sinal de luz e uma buzinadinha pro cara se tocar de que ele me deixara para trás. E ele... PAROU!
O nível de adrenalina correndo em minhas veias era tanto que eu sequer me sentei, mesmo com todas as poltronas vazias. E, assim, eu segui até a casa da minha amiga, com o coração ainda palpitando, a sensação de alívio pairando e os pensamentos no cara que deixei pra trás. Espero que ele tenha piedade do próximo transeunte que cruzar seu ponto.